E a Espanha neste Europeu, só esteve a perder por 3', quando a Itália fez o 1-0 aos 61', pois logo aos 64', Cesc Fabregas empatava a partida. Desde então, ninguém mais o desfeiteou. CR7 dificilmente volta a marcar neste Europeu, a Espanha conhece-o bem, e de gingeira, atrevo-me a acrescentar.
A Espanha hoje, na segunda parte, foi capaz de gerir e controlar o jogo, não fez grandes correrias, poupou esforços e mais importante, deu descanso ao David Silva, que a seguir ao Iniesta, é o jogador mais importante em termos ofensivos, sem esquecer claro o Xavi. O Iniesta saiu um pouco mais cedo, mas a sua poupança não é assim tão significativa.
A França foi incapaz de acelerar e intensificar o seu jogo, logo após a derrota por 2-0 diante da Suécia, outra derrota por 2-0, agora diante da Espanha, não soa assim tão mal. Os franceses fizeram melhor figura agora que nas duas últimas fazes finais em que estiveram presentes, mas é muito pouco para quem tanto prometia depois daqueles 2-0 à Ucrânia. De certa forma, lembraram Portugal no último Europeu.
Croácia e Itália já mostraram como se trava esta Espanha, que felizmente chuta pouco à baliza, o problema é que no confronto entre equipas, a Espanha tem vantagem em pontos fulcrais. A começar, pela baliza. Casillas foi poucas vezes chamado a intervir e tem toneladas, quilómetros, anos de experiência para dar e vender, para não falar de uma qualidade e talento ímpares! Rui Patrício por sua vez está a fazer um tirocínio muito sofrível, sofreu 4 golos, não fez ainda uma defesa decisiva, acusa a pressão e tem passado positivamente ao lado deste Europeu. A minha percepção é que isto não vai mudar no próximo jogo, mas pode ser e desejo muito isso, que a nível psicológico estejam a trabalhar o moço e que ele esteja mais tranquilo e frio, pois vai ser o jogo em que mais vamos precisar dele ao mais alto nível, sem esquecer a final, caso lá cheguemos.
Na dupla de centrais, Pepe é melhor que Sérgio Ramos, já Piqué contra Ricardo Carvalho ficava ela por ela. Como jogamos com Bruno Alves, outro central de marcação, contra uma equipa que não dá ninguém a marcar, estamos positivamente lixados com F grande. Jordi Alba tem sido melhor que Arbeloa e tem aparecido com perigo a ajudar na frente. Neste aspecto, Fábio Coentrão parece ser superior a João Pereira, a nível defensivo, este é mais fraco que aquele e ambos parecem-me inferiores aos seus homólogos espanhóis.
Como Del Bosque deverá deixar novamente Torres sentado no banco, e Miguel Veloso é inferior comparativamente a Xabi Alonso, a Espanha neste aspecto tem vantagem, mas mais no aspecto em que Portugal tem de defender (que irei abordar mais à frente), porque quando temos a bola, o português não tem decepcionado. Raul Meireles está completamente desgastado depois de mais uma temporada de intenso nível em Inglaterra, ainda assim, comparando com Busquets e salvaguardando as devidas diferenças, num dia sim, o nosso número 16 parece-me melhor que o seu homólogo espanhol. João Moutinho tem estado em grande plano, mas fica sempre a perder quando comparado a um Xavi, a um Iniesta, a um Fabregas ou a um David Silva. Mas na importância que tem para Portugal, da forma como tem feito esta equipa jogar, seja a atacar, seja a defender, não fica atrás de nenhum dos quatro espanhóis.
Nas alas ou encostados às linhas, os espanhóis não têm ninguém capaz de competir ora com Nani, ora com Cristiano Ronaldo, nesse aspecto as duas equipas com talento semelhante já foram para caso, casos dos Países Baixos de Robben e da França de Ribery. Onde ficamos a perder em relação a toda a gente é na frente do ataque, na referência no centro da área adversária, pois Postiga e a sua experiência vão estar ausentes por lesão, restando Hugo Almeida que tem feito algo mais que o benjamim Nuno Oliveira, claramente o jogador que mais ao lado tem passado deste europeu, depois do já supracitado Rui Patrício. Curiosamente, os dois jogadores mais jovens desta equipa.
Contrastando Portugal a defender contra a Espanha a atacar, Bruno Alves e Pepe são um ponto vulnerável, assim como os dois laterais, assim como Miguel Veloso. Perto deles, qualquer jogador ofensivo espanhol com bola irá criar espaços para que hajam remates perigosos à nossa baliza e a menos que Rui Patrício tenha acordado com o cu virado para a Lua, estamos lixados com F grande. Juntando Raul Meireles e a coisa não fica muito melhor, pois o moço só vai durar uma hora, pelo que com Custódio em campo, na melhor das hipóteses, o rendimento do nosso meio-campo a nível defensivo, a jogar sem bola e atrás do tiki taka espanhol, não cai a pique. E isto é muito "wishful thinking".
Todavia, Moutinho ainda tem muito coração e deverá ajudar defensivamente, e Nani neste aspecto deve repetir o posicionamente e disponibilidade evidenciadas diante da Alemanha e dos Países Baixos. O problema é que mesmo assim, com Hugo Almeida a tentar prender os centrais e Cristiano Ronaldo solto num dos lados, tal não é suficiente para nos dar superioridade numérica, quando sem bola e a defender, pois um lateral e Xabi Alonso serão suficientes para bloquear o nosso capitão, enquanto que Hugo Almeida será presa fácil de Piqué ou Sérgio Ramos, mais do primeiro que do segundo todavia.
Com alguma sorte, Busquets talvez esteja mais recuado a ajudar Xabi Alonso a tapar o nosso número 7 e nesse caso, enquanto a Espanha temer as arrancadas do nosso melhor marcador, sobram apenas 4 homens lá na frente, todos médios, ou apenas com um avançado, Torres. Este todavia deverá começar o jogo no banco e assim sendo, com Xavi mais recuado, depende imenso da forma como o nosso "octecto" defensivo vai posicionar-se, de como conseguirem manter as 2 linhas suficientemente juntas e sempre com os seus elementos em antecipação às jogadas contrárias.
A Croácia foi capaz de o fazer muito bem e apenas perdeu porque precisava de vencer nos 90 minutos. A Itália também mostrou como se consegue resistir ao 4-6-0 espanhol. É pelo conjunto que a Espanha é mais forte, terá de ser pela organização e pelo conjunto que Portugal poderá alguma vez alimentar esperanças de safar-se nesta partida.
Em termos disciplinares, João Pereira é o elemento mais fraco, a par de Miguel Veloso é o nosso jogador mais fraco também a nível exibicional, aliás, neste aspecto, o filho de António Veloso tem estado melhor, talvez por ser no global da sua qualidade, algo superior ao mais recente ex-sportinguista. Pepe para ser amarelado também deve ser uma aposta ganha, tal como Bruno Alves ou Fábio Coentrão, neste aspecto, toda a nossa linha defensiva está marcada para cartões amarelos e expulsões, não tendo por parte do árbitro quaisquer contemplações. Vai ser "open season", "field day" ou um desastre completo. No meio-campo, claro que Miguel Veloso, Raul Meireles e João Moutinho, menos este é certo, estão marcados para serem admoestados disciplinarmente, e qualquer que seja o outro português em campo, também não se safa, talvez mesmo só o Rui Patrício, e só no caso de não atrasar na reposição da bola em jogo.

Portanto, o segredo desta partida está não só em ocupar muito bem os espaços e juntar as linhas do meio-campo e da defesa, tentando todavia abrir uma clareira entre o meio-campo e a linha defensiva contrárias por forma a que a velocidade de Nani e Cristiano Ronaldo possam dar-nos hipóteses de criar jogadas de perigo junto da grande área da Espanha. O problema é que na concretização somos uns autênticos nabos e Casillas em dia sim é intransponível.
Em suma, acho que as odds para a Espanha para vencer no final do jogo vão abrir entre os 1,60 e os 1,80, se forem mais altas, então será tipo 0,56 ou 0,55 de probabilidades para a Espanha vencer. Acho todavia que neste caso, tendo em conta as nossas debilidades defensivas e podendo Torres ou Llorente entrar, temo mais este que aquele, qualquer coisa entre os 0,65 e os 0,70 será mais adequado. E assim sendo, as odds correspondentes variam entre os 1,55 e os 1,45, mais ou menos.
Para Portugal vencer, não dou mais que 0,12 a 0,15 de probabilidades, pelo que o resto vai para o empate. Ora para Portugal AH +0,5 ter algum valor numa meia-final, teria de estar com um preço igual ou superior a 2,70, caso as probabilidades de Portugal empatar ou vencer a partida fossem de pelo menos 0,45.
Abrindo a Espanha com odds de 1,80 ou superior, dando as como reais as odds de 1,50, temos aqui um diferencial de vantagem na casa dos 20%, fruto não só da hostilidade que a arbitragem terá contra Portugal, condicionando os nossos jogadores a nível disciplinar e em termos de faltas, segurando o nosso jogo no nosso meio-campo e impedindo a sua progressão no terreno, como por achar que dificilmente a nossa organização defensiva será capaz de estancar o caudar e a capacidade ofensivas da Espanha, que em poucas oportunidades será capaz de passar por Rui Patrício e marcar um ou dois golos.
Cristiano Ronaldo até pode acertar com a baliza, mas lá estará tanto Casillas para defender, como os postes da sua baliza, uma vez que o português conta já com quatro bolas nos ferros, mais três que Pepe.